23 abril 2018

Dos azares.

por João Maria Condeixa.

"Ao terceiro cancro encomendou o caixão. Queria deixar tudo resolvido e já tinha tido avisos a mais para se manter de braços cruzados. Se não fosse com este havia de morrer com o próximo. E assim se decidiu a arrumar as suas coisas.
Tratou de encomendar a burocracia, encerrar as contas do banco insolúvel, deixar escritas as partilhas que ninguém queria, arrumar pela grossura de lombadas uma vida inteira de livros, empacotar a coleção de hóstias que de vários cantos do mundo tinha optado por não comungar e até escovou as penas ao seu velho amigo Jacob, o papagaio que nunca na vida imitara mais que um arroto. 
Ao longo de meses foi ao mais ínfimo pormenor sempre com receio que o cancro lhe ditasse o fim antes de terminar a tarefa hercúlea a que se tinha proposto. 
Só quando tudo acabou é que olhou para trás a pensar quanto mais lhe faltaria pela frente.
Sentou-se para jantar descansada e na primeira azeitona que tragou um caroço dobrou-lhe a espinha ao entalar-se onde nem o ar passava. 
Sob signo da asfixia sucumbiu em frente à TV que insistia em ter uma cartomante que falava da sorte e dos milhões de euros que ia distribuir nessa noite. De joelhos, tombou e por engasgamento trivial morreu. 
O cão suspirou de tédio e perante a notícia da morte a família desabafou:
- coitada tinha cancro e era o terceiro."



26 março 2018

Um negócio de Deus | Inês Teotónio Pereira

Um Negócio de Deus
por Inês Teotónio Pereira
no DN, de 24 de Março



Descobri que os filhos são um negócio de Deus e não um assunto dos homens. Não encontro outra explicação. A um dos meus filhos digo-lhe que ele é um presente que Deus me deu e conto-lhe como foi: "Deus disse-me assim: toma lá este para te ajudar com os outros, é um brinde." Se não foi parecia: ele nasceu com caracóis louros e rechonchudo e nos livros que eu tenho de anjos, os anjos têm todos caracóis louros. Se vissem o sorriso dele cada vez que lhe digo isto. "O pior é que foste o quinto, já está tudo feito." Ele ri-se e às vezes cora. Ao mais novo dizemos que nos veio desarrumar a sala: "Foi um vendaval que Deus nos mandou para se divertir." E ele também se ri mas sem vergonha nenhuma. Uma vez escondeu-se num centro comercial e a Terra parou de girar, foram 15 minutos no inferno. "Estava a brincar", explicou ele quando um senhor o puxou debaixo de umas roupas, e estava mesmo. A quantidade de vezes que me aperta a alma quando eles sofrem, sorriem, dormem não é de mim. Ou não é só. É por isso que os filhos são um negócio que Deus faz connosco: toma lá e aprende a amar. Só pode. Eles a nós e nós a eles. É que não faz sentido. Não há nada de justo no amor dos pais pelos filhos e dos filhos pelos pais: não se dá para se receber, dá-se e pronto. Por isso é que são tantas as vezes que nos apetece atirar os nossos filhos pela janela: quando já não temos forças para dar mais. Conheço pessoas, várias, que adotaram crianças portadoras de deficiência e o que me ocorre sempre que penso nelas é a coragem. Quando e como surgiu a decisão, o que os motivou, como é que souberam que conseguiriam, quem lhes disse que iriam conseguir amar? Depois oiço-me a queixar do trabalho que os meus me dão. Coisa mais parva. Mas não, descobri que não é a coragem que conta, é o amor. É a decisão de amar. Aquela coragem vem de um amor qualquer e aquelas crianças são mais um enorme presente de Deus: fazem parte de um negócio valiosíssimo que Deus só faz com santos. Já nós, os comuns mortais, preocupamo-nos com coisas parvas e não em ser santos. Não temos tempo, nem paciência, nem coragem. Eu, pelo menos.

Eu aqui irritada com as notas dos meus filhos, por exemplo. Haverá coisa mais parva do que uma pessoa se chatear profundamente com as notas dos filhos? As notas são apenas notas, toda a gente sabe. Dizemos isto, até acreditamos, mas na prática levamos a escola mais a sério do que os filhos. Às vezes penso que é por ser mais fácil. É mais fácil olhar para as pautas do que para eles. Experimentem conversar com as crianças, com os adolescentes: é complicado, dificílimo. É mais simples reunir com os professores, que, coitados, não têm nada que ver com isto. Mas nós achamos que sim, ou que pelo menos percebem o que nós dizemos. O Papa dizia no outro dia que os miúdos estão fartos de palavras, de discursos, e que aquilo que interessa é o exemplo, mais nada. Eles ouvem tantas coisas, tantas sentenças, juízos, opiniões, considerações sobre as suas vidas e maneiras de ser que as palavras deixaram de lhes fazer sentido. São rumores, não são palavras. Não sentem que eles olham através de nós quando lhes fazemos aqueles discursos sábios sobre a vida e a experiência, o futuro e o trabalho, o mérito e a bondade? Eles olham mesmo. Uma vez fiz um discurso destes e no fim a criança perguntou o que era o jantar. Deixou passar uns instantes, como se estivesse a assimilar a parvoíce toda que eu debitei e no fim: "O que é o jantar?" São o grau zero da credibilidade, estes discursos.

No outro dia jantei ao lado de um pai e de um filho que passaram o tempo inteiro a olhar para o telemóvel e eu para eles para ver se era possível comerem a olhar para o telemóvel. E foi (com pauzinhos). Não se ouviu uma palavra durante todo o jantar, o filho jogava a um jogo e o pai entretinha-se no Facebook. O miúdo deve ter boas notas, pensei, se não têm nada de que falar. Ter boas notas é meio caminho andado para calar e afastar os pais, aprendi. Li num livro a história de um pai que andava preocupado com as notas miseráveis do filho e com o seu desinteresse por tudo. "Vai jantar com ele e não lhe fales das notas nem da escola. Não leves o telemóvel", aconselharam. Foi o que bastou. Falaram até hoje. Aquele meu filho lá de cima - o presente - adora falar e isso facilita tudo. A coisa que ele mais gosta de fazer é de ajudar-me a tirar a loiça da máquina enquanto me pergunta tudo o que lhe passa pela cabeça. Não sei, é raríssimo saber as respostas. Mas ele adora falar: "Já posso falar?", pergunta ele à espera da vez. Os filhos falam, não ouvem - somos nós que devemos ouvir. Ouvem e veem. Mas há paciência? Quase nunca. Lá está, somos o comum dos mortais. Tenho um que me telefona a dizer que vai lanchar: "Olá, é só para dizer que cheguei e vou lanchar." Só isto. Riu-me sempre que ele me telefona porque tenho a certeza de que é Deus a fazer uma piadinha, a gozar comigo enquanto me ensina a amar. Há coisa mais bonita do que isto? "Olá, é só para dizer que cheguei e vou lanchar."

19 março 2018

Educar.


"Educar é dar alguns bons conselhos, poucos para não chatear muito, dar muitos bons exemplos e, principalmente, rezar pelos filhos."

padre JS


19 fevereiro 2018

Begin Again.


I am the father of three children four and under. It is always startling to me, though it shouldn’t be at this stage, how quickly things can spin out of control. A perfectly clean house that took a great deal of effort to tidy up can nearly instantly be destroyed by our children with hardly any effort at all.

Cheerios crunch under my feet as I gaze in stupefied awe at the explosion of food under our one-year old’s high chair. Pieces of Mr. Potato Head are unearthed in my sock drawer. Beds that were neatly made a moment ago are suddenly a tangled mess of blankets and sheets in no time at all. I could go on and on.

It is as if a tornado sweeps through our home on a daily basis. It is the law of entropy experienced in all its brutal and chaotic reality.

Yet, my wife and I both tend to crave order and neatness. We’ve tried, unsuccessfully, to just ignore it and let go. Maybe someday we’ll succeed. But for now we can’t. Each day, the house is nearly destroyed, and each day we begin again the futile task of picking up, wiping down, vacuuming, sweeping, emptying, and organizing. It is a process that will never end—at least, as long as we have children in the house.
Cleaning Your Spiritual House

We are in the midst of the season of Lent, and recently, it struck me how similar our spiritual struggle is to keeping an orderly house. Often, we compare the spiritual life to heroic things like warfare and wrestling and endurance racing. But maybe taking out the trash is a more down to earth comparison.

At any rate, I’ve noticed that, just as a clean house quickly descends into disorder and must be constantly cleaned, so also our souls need constant care and upkeep. We must always be beginning to put them in order again.

We must do this because there is a spiritual law of entropy called sin. We are constantly being pulled away from God by our sinful passions. They literally make war against us, and left unchecked, hinder our journey to our Creator. Our sinful nature—what scripture refers to as the flesh or the old man— acts like gravity that keeps us from ascending to our Father. St. Paul once described sin as a “weight,” and it is an apt metaphor.

Because of our brokenness, there is no such thing as a holding pattern in the spiritual life. The minute you cease advancing, you begin to lose ground. The moment you relax your guard, you will fall back. This side of heaven, we will never truly be free of this reality.
Begin Again

There are days when our children have made such a mess of things that cleaning up seems a hopeless task. My wife and I look at each other and don’t know whether to laugh or cry. Yet, we begin again.

Likewise, in the spiritual life, there are moments when we feel hopeless. Like all our struggling is in vain. We are tempted to give up, thrown in the towel, and take the easy road. But the end of this way is death.

In this life, holiness is found in beginning again and again. It is constant examination and conversion and regeneration of heart. Holiness if found in repentance. And repentance is not merely feeling sorry that you sinned. It is rather a re-turning to God—a thousand times a day if necessary.

If we desire a clean house, we can never stop cleaning. If we desire a pure heart, we must never cease the struggle of conversion and repentance. This is the Christian life. Begin again.

27 dezembro 2017

Ser como José.

São José - José de Ribera (1591 - 1652)

Ensina-nos, José, a simples e difícil arte de cuidar
Que aceitemos ser guardadores em vez de donos
Disponíveis para um amor sem cálculo nem usura

Ensina-nos a beleza dos gestos essenciais
A força das coisas de nada que depois são quase tudo
O silêncio e a palavra, o tempo da presença e o riso

Ensina-nos a permanecer ao lado, sem protagonismos
A esperar que o outro dê o passo servindo-lhe de corrimão
Naquela forma de fidelidade que percebemos em Deus


Pe José Tolentino Mendonça